Análise Macroeconômica
05 de junho de 2026
O mês de abril foi marcado por duas fases bem distintas. Na primeira quinzena, o Ibovespa atingiu recordes históricos, tocando 199.354 pontos intraday em 14 de abril, sustentado pela entrada de R$ 14,6 bilhões de capital estrangeiro até o dia 15. Na segunda quinzena, o impasse nas negociações de paz entre EUA e Irã, que ainda não arrefeceu e continua gerando desconfortos ao investidor, reverteu o movimento, levando o índice a acumular queda de 7% da máxima, encerrando o mês com variação de -0,08%, a 187.317 pontos. No acumulado de 2026, o Ibovespa ainda sobe 16,26%.
O Copom realizou o segundo corte consecutivo de 0,25 p.p. na Selic, levando a taxa a 14,50% ao ano, mas sem sinalizar os próximos passos. A inflação seguiu pressionada: o IPCA de março veio em 0,88% (4,14% em 12 meses) e o IPCA-15 de abril acelerou para 0,89% (4,37% em 12 meses), ambos acima das expectativas, impulsionados pela alta dos combustíveis. O Focus elevou a projeção do IPCA 2026 para 4,86%, sendo essa a sétima alta consecutiva e acima do teto da meta. O dólar encerrou abril a R$ 4,95, mínima desde março de 2024, favorecido pelo diferencial de juros de 10,75 p.p. frente aos EUA, onde o Fed manteve a taxa em 3,50%–3,75%. O petróleo Brent oscilou entre US$ 95 e US$ 126 ao longo do mês, encerrando próximo de US$ 110 por barril.
Cenário Macroeconômico — Brasil
Copom corta Selic a 14,50%, sem guidance
O mês de abril foi marcado pela decisão do Copom de reduzir a Selic em 0,25 p.p., para 14,50% ao ano, o que foi o segundo corte do ciclo de calibração iniciado em março, decidido por unanimidade.
O BC elevou a projeção de inflação para 2026 de 3,9% para 4,6% e para 2027 de 3,3% para 3,5%, ambas distantes do centro da meta de 3%, o que acende um sinal de alerta sobre como será o ritmo de cortes dos juros, uma vez que no horizonte relevante para o BC, a inflação segue fora da meta.
Por todo esse contexto, o que mais chamou atenção no comunicado do Copom, foi que a autoridade monetária não ofereceu guidance sobre os próximos passos, condicionando decisões futuras à evolução dos dados.
Dessa forma, o mercado passou a projetar Selic terminal entre 13% e 13,25% ao final de 2026, o que indica um ritmo de cortes mais lento do que o esperado antes da guerra. O diferencial de juros Brasil–EUA atingiu 10,75 pontos percentuais, favorecendo o carry trade e sustentando a demanda por ativos brasileiros de renda fixa.
Inflação: combustíveis pressionam além do esperado
O IPCA de março registrou 0,88%, acima do consenso de 0,77%, com acumulado em 12 meses de 4,14%. A alta acima do esperado foi impulsionada pela Gasolina que subiu 4,59% e o diesel que disparou 13,90% no mês, mesmo sem reajuste formal pela Petrobras. O IPCA-15 de abril, que é uma prévia para a inflação cheia do mês, acelerou para 0,89% (4,37% em 12 meses), confirmando a pressão inflacionária persistente via combustíveis e alimentos.
A projeção do Focus para o IPCA 2026 atingiu 4,86% ao fim do mês, sendo essa a sétima alta semanal consecutiva. Algumas casas realizaram ajustes em suas projeções, começando pela XP que revisou sua estimativa para 4,80% e a SulAmérica, que trabalha com cenários acima de 5%.
Mesmo com as medidas adotas pelo governo para aliviar o preço do diesel, como forma de não gerar demais desdobramentos internos, como uma possível greve dos caminhoneiros, a inflação ainda sim apresentou forte impacto dos combustíveis.
Câmbio, fluxo externo e crédito
O dólar encerrou abril a R$ 4,95, mínima desde março de 2024. O fluxo de estrangeiros na B3 totalizou R$ 6,9 bilhões no mês, levando o acumulado anual a cerca de R$ 57 bilhões. Na primeira quinzena, a entrada havia sido de R$ 14,6 bilhões, porém o mau humor do mercado com as negociações frustradas entre EUA e Irã fizeram com que o mercado mudasse o fluxo dos recursos, o que tirou parte dessa entrada.
A atividade doméstica segue resiliente: mercado de trabalho aquecido, consumo das famílias em expansão e crédito crescendo (e é aqui que mora um dos maiores perigos desse ciclo de juros mais altos).
Os dados divulgados pelo Banco Central no final de abril, referente ao fechamento de março, demonstrou que o saldo total das operações de crédito do SFN chegou a R$ 7,2 trilhões, com crescimento de 0,9% no mês.
Quando analisados os dados referentes ao crédito total às famílias, o valor chega a R$ 4,5 trilhões, o que representa uma expansão de 10,9% em 12 meses. O crédito livre às pessoas físicas somou R$ 2,5 trilhões (+1,1% no mês, +12,3% em 12 meses), com destaque para cartão de crédito à vista, consignado privado e financiamento de veículos.
Por sua vez, o crédito ampliado às empresas chegou a R$ 7,1 trilhões (54,9% do PIB), com expansão mensal de 1,5%, impulsionado por títulos privados de dívida (+2,6%), empréstimos externos (+2,0%) e empréstimos do SFN (+0,9%).
Cenário Internacional
Guerra no Oriente Médio: entre recordes e impasse
A primeira quinzena foi marcada por expectativas de acordo: Trump sinalizou abertura para negociar com o Irã, o Ibovespa bateu recordes e o dólar caiu abaixo de R$ 5. Na segunda quinzena, o fracasso das negociações entre os países jogou um balde de água fria nos investidores e reverteu o cenário: petróleo voltou a subir e os ativos de risco recuaram globalmente.
O petróleo alta, para países como o Brasil, apresenta dois cenários: o primeiro é um aumento da arrecadação por parte do governo, o que impulsiona o superávit comercial; já o segundo, é um aumento relevante nos níveis de inflação, que como já abordado, vieram acima do que o mercado esperava e fizeram, até mesmo o BC, não deixar claro quais serão os próximos passos da política monetária.
O Brent oscilou entre US$ 95 e US$ 126 por barril ao longo de abril, encerrando próximo de US$ 110–114. O Estreito de Ormuz permanece formalmente fechado ao tráfego aliado, mantendo prêmio de risco elevado. O petróleo segue mais de 50% acima dos níveis pré-conflito.
Federal Reserve mantém juros e diferencial com Brasil amplia
Em 29 de abril, o Fed manteve os juros entre 3,50% e 3,75% ao ano, terceira manutenção consecutiva. O diferencial Brasil–EUA chegou a 10,75 p.p., o maior desde 2014, favorecendo o fluxo de capital para o Brasil e sustentando o real em patamares abaixo dos últimos meses.
O Fed aguarda a definição sobre a persistência do choque de petróleo antes de retomar o ciclo de cortes. A economia americana segue resiliente, com dados de atividade e emprego positivos no 1T26.
Desempenho dos Principais Ativos — Abril 2026
Mercado de Renda Variável
Abril ilustrou com clareza como o fluxo estrangeiro dominou a direção da bolsa. Na primeira quinzena, com R$ 14,6 bilhões entrando até o dia 15, o Ibovespa encadeou 15 recordes históricos em 2026, chegando a 199.354 pontos intraday em 14 de abril. A partir daí, a saída parcial desse capital, em virtude da frustração com as negociações de paz, fez com que o índice apresentasse sete quedas em dez sessões, recuo de 7% da máxima.
Petrobras, PRIO e empresas de energia lideraram as altas no início do mês, beneficiadas pelo petróleo elevado. Na segunda quinzena, bancos (Bradesco -0,6%, BB -1,3%) e Petrobras (-1,3%) lideraram as perdas. Usiminas (+7,5% em um dia) e Hapvida foram exceções positivas graças a resultados do 1T26 acima das expectativas. A temporada de resultados seguiu como catalisador diferenciador entre empresas de fundamentos sólidos e as mais expostas ao ciclo de juros.
Mercado de Renda Fixa
Com a Selic em 14,50% ao ano e o diferencial de juros em nível histórico frente aos EUA, os títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic (LFT) e seus equivalentes, continuam sendo uma das melhores alternativas globais de risco-retorno. O ciclo de cortes gradual permite que o investidor se beneficie desse carrego elevado por mais tempo do que o inicialmente esperado.
Nos títulos IPCA+, as taxas reais seguem em patamares historicamente atrativos, oferecendo proteção relevante em um ambiente de inflação acima da meta.
A ressalva segue para a marcação a mercado dos vencimentos mais longos: em um cenário de incerteza sobre o ritmo de cortes e com inflação acelerando, esses papéis tendem a oscilar mais no curto prazo. Preferimos manter duration compatível com o perfil e horizonte de cada cliente.
Importante reforçar, que a indústria de crédito privado, principalmente os fundos de Infraestrutura, seguem sofrendo em virtude do aumento dos spreads dos papéis e pelas saídas de investidores desses fundos em virtude ao aumento da aversão ao risco.
Esse movimento abre espaço para entradas em alguns ativos, que hoje apresentam taxas maiores do que aquelas do início do ano, para, em média, um nível de risco parecido. Importante, ainda, avaliar muito bem quais empresas aderir ao portfólio, visando aquelas com forte caixa, baixo endividamento e boas perspectivas como um cenário mais adverso.
Perspectivas para os Próximos Meses
O desfecho do conflito no Oriente Médio segue como o principal catalisador para os mercados. Um cessar-fogo efetivo e a reabertura do Estreito de Ormuz abririam espaço para queda do petróleo, alívio inflacionário e eventual aceleração dos cortes da Selic a partir de junho, o cenário mais favorável para ativos de risco. A ausência de acordo, por outro lado, poderia forçar uma pausa no ciclo e pressionar ainda mais as expectativas de inflação.
No campo doméstico, os focos de atenção são: o IPCA de abril (que deve refletir o reajuste de medicamentos e novos impactos dos combustíveis), a reunião do Copom em junho e o início do calendário pré-eleitoral, com a eleição presidencial em outubro de 2026 ganhando relevância crescente no radar dos investidores.
Nesse ponto, é importante lembrar que podemos sim ter maiores oscilações, principalmente no mercado de renda variável e de juros futuros, por isso é fundamental estar atento aos desdobramentos e os passos de cada candidato, bem como suas propostas.
Para os portfólios, mantemos visão equilibrada: renda fixa pós-fixada como base de sustentação; exposição seletiva em renda variável com foco em exportadoras de commodities, setor financeiro e empresas de baixa alavancagem e atenção à duration dos títulos IPCA+, privilegiando vencimentos compatíveis com o horizonte de cada cliente, mas lembrando sempre que o ideal são títulos com vencimento, pelo menos, em 2035, para o ganho com a marcação a mercado.
Equipe de Gestão
RS Legacy | Maio de 2026


